Futebol volta aos territórios palestinos, apesar do luto
Durante três anos, o narrador esportivo Jalil Jadallah passou boa parte do tempo prestando homenagem a jogadores mortos em Gaza. Na sexta-feira, finalmente voltou ao microfone: as competições de futebol foram retomadas nos territórios palestinos pela primeira vez desde o início da guerra.
Suspensas após o início do conflito entre Israel e Hamas, em 7 de outubro de 2023, as atividades foram retomadas de uma maneira particular. A Federação Palestina de Futebol lançou simultaneamente na Cisjordânia ocupada, na Faixa de Gaza e nos campos de refugiados no Líbano a "Copa dos Mil Mártires", em homenagem aos 1.014 atletas mortos durante as hostilidades, segundo a entidade.
"Passei os últimos anos da minha carreira prestando homenagem aos jogadores cujos gols eu costumava narrar", contou Jadallah à AFP durante a partida de abertura em Al-Ram, na Cisjordânia.
Para ele, o retorno mistura "a alegria de voltar depois dessa ausência e a tristeza de ter perdido jogadores, torcedores, dirigentes e árbitros".
Durante a guerra, as autoridades palestinas do futebol acusaram Israel de matar jogadores e danificar a infraestrutura esportiva de Gaza. Em 22 de julho, o Exército israelense afirmou que cerca de uma dezena de figuras do futebol palestino mortas no conflito integravam grupos armados. A Federação Palestina de Futebol rejeitou as acusações.
- "A vida parou" -
Em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, o torneio começou com uma partida entre Khadamat Rafah e Shabab Rafah.
A competição é disputada apesar da destruição de instalações esportivas pelos bombardeios israelenses. Alguns campos continuam ocupados por tendas de palestinos deslocados.
Ao redor de um pequeno campo de futebol de cinco cercado por palmeiras, dezenas de espectadores se acomodaram em cadeiras de plástico.
"O futebol representava a vida para nós antes da guerra (...) Depois da guerra, a vida dos jogadores parou completamente", afirmou à AFP Jalil Matar, do Khadamat Rafah. "Com esta copa, homenageamos nossos companheiros que dividiam o campo conosco".
O torneio reúne 226 clubes: 146 na Cisjordânia ocupada, 44 na Faixa de Gaza e 36 nos campos de refugiados palestinos no Líbano.
- Minuto de silêncio -
Antes da partida em Al-Ram, crianças deram uma volta no gramado carregando uma bandeira palestina dobrada como uma mortalha e depois a colocaram no centro do campo.
Após 10 minutos e 14 segundos de jogo, o árbitro interrompeu a partida para um minuto de silêncio em homenagem aos 1.014 atletas mortos.
Nas arquibancadas, telas exibiam os retratos das vítimas e a mensagem: "O futebol volta à Palestina".
"Nós morremos e a Palestina viverá", gritaram os torcedores.
"Estar aqui permite perpetuar a memória dos mártires e apoiar o esporte", afirmou Maysan Souleiman, moradora de Al-Ram de 35 anos.
O torneio ocorre em um contexto ainda marcado pela violência em Gaza, apesar do cessar-fogo, e pela intensificação dos ataques de colonos israelenses na Cisjordânia.
Para Jadallah, a competição tem um significado que vai além do futebol: "É uma prova de nossa determinação de viver, apesar de tudo o que nos empurra a partir".
E.Omar--CdE