Courier de l'Égypte - Cinquenta anos após o Plano Condor, pesquisa em Londres busca respostas

Cinquenta anos após o Plano Condor, pesquisa em Londres busca respostas
Cinquenta anos após o Plano Condor, pesquisa em Londres busca respostas / foto: Brook Mitchell - AFP

Cinquenta anos após o Plano Condor, pesquisa em Londres busca respostas

"Nunca perdemos a esperança, mesmo nos momentos mais difíceis". A chilena Laura Elgueta Díaz compartilha com a AFP seu desejo de que um dia seja esclarecido o desaparecimento, há 50 anos, de seu irmão Luis, uma das centenas de vítimas do Plano Condor.

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Nessa tarefa de investigar e documentar o Plano Condor - um sistema de coordenação repressiva acertado há meio século, em novembro de 1975, pelas ditaduras sul-americanas -, ela trabalha há cinco anos um grupo de profissionais de diferentes áreas, liderado a partir de Londres pela professora italiana Francesca Lessa.

"Muitos parentes de vítimas e também perpetradores morreram. Sempre há algo a ser feito. Há milhares de famílias, não apenas no Plano Condor, que continuam esperando respostas", explica Lessa à AFP.

Luis, irmão de Laura Elgueta Díaz, desapareceu em Buenos Aires em julho de 1976. Naquele mesmo mês, María Cecilia Magnet, também chilena, desaparecia junto com o marido, igualmente na Argentina.

Sua irmã Odette Magnet é mais pessimista. "Não acredito que saberemos mais do que já sabemos", afirma Odette, acrescentando que, dos dois implicados no desaparecimento de sua irmã e do cunhado, "um já morreu e o outro, como outros milhares, guarda um silêncio covarde, como convém ao pacto que todos os implicados nos crimes fizeram, de não entregar nenhuma informação".

"A dor que me acompanha há cinco décadas continua tão viva e profunda quanto no primeiro dia", afirma a chilena.

- Vítimas verificadas -

Lessa dedicou quase toda a sua carreira de pesquisa ao Plano Condor, primeiro na Universidade de Oxford, desde 2014, e agora na University College London (UCL), desde 2023.

Professora de Relações Internacionais das Américas na UCL, autora de dois livros e responsável por um site sobre o tema (plancondor.org), para qual colaboram quase 20 pessoas, ela explica que o número de vítimas verificadas do Plano Condor é de, no mínimo, 805.

"Estão incluídos diferentes tipos, como desaparecidos, mortos, sequestrados que sobreviveram ou crianças roubadas", afirma.

No Plano Condor, que permitia às ditaduras sul-americanas perseguir seus opositores fora de suas fronteiras, colaboraram principalmente as juntas militares de Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil.

Das 805 vítimas, mais da metade (461) foram objeto de processos judiciais, segundo o trabalho de Lessa.

Suas pesquisas resultaram em um livro acadêmico e nessa página web dedicada a documentar e analisar o Plano Condor.

Dentro dessa equipe de colaboradores de Lessa trabalha a uruguaia Mariana Risso, psicóloga e pesquisadora que acompanhou vítimas de tortura e participou de livros sobre memória histórica.

"As pessoas que sofreram o indizível, que foram sequestradas em Buenos Aires, transferidas clandestinamente para o Uruguai para seguir sendo cruelmente torturadas, transmitiam não apenas suas vivências, mas também tentavam superar a angústia mais profunda para demonstrar calor humano e preocupação com quem as acompanhava", explica Risso à AFP.

- Ameaças de morte -

Antes desse site, bolsas e fundos de pesquisa, quando era professora em Oxford, permitiram a Lessa concluir um primeiro trabalho de pesquisa, transformado em livro, chamado "Os julgamentos do Condor: a coordenação repressiva e os crimes contra a humanidade na América do Sul".

Suas pesquisas fizeram com que recebesse ameaças de morte em 2017.

"Em situações de ameaça de morte e de segurança pessoal, não creio que nós, acadêmicos, estejamos muito preparados", afirma.

Lessa explica que uma tarefa ainda pendente para realizar com sua equipe é uma base de dados com as pessoas julgadas.

Dos cerca de 50 julgamentos relacionados com o Plano Condor, Lessa assistiu a 74 audiências na Argentina e 13 na Itália, entrevistando 105 pessoas.

"Quando contam as histórias, você percebe o quanto é duro. Essas famílias travam essa luta há 50 anos, sem baixar os braços. Elas sempre me inspiram", afirma Lessa.

Seu primeiro trabalho foi publicado em inglês, espanhol, italiano e francês "e deve ser lançado no Brasil em 2026", aponta a autora.

Do trabalho do site surgiu a publicação de outro livro ilustrado, em colaboração com o artista uruguaio-argentino Sebastián Santana, publicado em vários países sul-americanos e que sairá nos Estados Unidos em maio, segundo a autora.

S.Tamer--CdE